Lápis Mágico

O Macaco de Rabo Cortado

História da tradição oral portuguesa recontada pelo autor António Torrado

O Macaco de Rabo Cortado

Era uma vez um macaco mariola, que andava de bata e sacola, como se fosse para a escola. Mas não ia. Era tudo a fingir. Os rapazes, quando o viam passar, troçavam dele e gritavam:

– Macaco escondido com o rabo de fora… Macaco escondido com o rabo de fora…

Pois era. Realmente o rabo sobrava de bata e, muito comprido e retorcido, corria atrás do macaco para onde quer que e fosse.

Então o macaco entrou num barbearia e pediu ao barbeiro que lhe cortasse o rabo. O barbeiro afiou a navalha e zaz! – rabo para um lado, macaco para o outro. A operação deve ter doído, mas o macaco, que tinha tanto de vaidoso como de corajoso, não se importou. E de sacola e bata, muito empertigado, veio para a rua mostrar-se nos seus novos preparados.

Estavam uns homens à conversa, numa esquina. Quando o viram passar, um deles comentou:

– Macaco sem rabo é como um burro sem orelhas. Fica mais feio e fica mais minguado. Coitado!

O macaco ouviu-o, sentiu-se e correu ao barbeiro para lhe desenvolvesse o rabo. Talvez ainda pudesse ser cosido ou colado…

– Olha o macaco toleirão à procura do rabo. Que queria que eu lhe fizesse? Deitei-o fora e a camioneta do lixo levou-o – disse-lhe o barbeiro.

Aí o macaco zangou-se. E quando uma pessoa ou um macaco se zanga e perde a cabeça, faz disparates. Sem mais nem menos, agarrou numa das navalhas do barbeiro e disse:

– Nesse caso, levo-lhe a navalha com que me cortou o rabo. – E abalou.

Ia ele por uma rua, quando passou perto de uma peixeira.

– Que linda navalha traz o menino na mão- disse a peixeira. – Ó minha carinha de anjo não me quer dar a navalhita, para eu amanhar o meu peixe?

O macaco ficou todo derretido com as falas da peixeira e, já se vê, deu-lhe a navalha. De mãos a abanar é que sabe bem passear…

Mas, passado tempo, veio-lhe a vontade de chamar outra vez sua á navalha e voltou atrás, à procura da peixeira.

– Olha o macaco paspalhão a perguntar pela navalha… fique sabendo que não prestava para nada. Mal lhe peguei, para amanhar umas sardinhas, partiu-se – disse-lhe a peixeira.

Aí o macaco zangou-se. Zangou-se e fez outro disparate. Pegou numa canastra de sardinhas e abalou, dizendo: – Nesse caso, levo-lhe as sardinhas com que me estragou a navalha.

Estava um padeiro à porta da padaria, quando o macaco passou com a canastra de sardinhas à cabeça.

– Psst, ó cavalheiro – chamou o homem, encostado á porta da padaria. – Um senhor tão distinto com sardinhas à cabeça não parece bem. Deixe-as cá ficar comigo, que tenho onde as guardar.

O macaco ficou sensibilizado com estas falas do padeiro, e, já se vê, deu-lhe as sardinhas. Pois é. De mãos a abanar é que sabe bem passear…

Mas, passado um tempo, veio-lhe a vontade de chamar outra vez suas às sardinhas e voltou atrás, à procura do padeiro.

– Olha o macaco trapalhão a perguntar pelas sardinhas… Comias em cima do pão e estavam bem gostosas, fique sabendo- disse-lhe o padeiro. Aí o macaco zangou-se. Zangou-se e fez outro disparate. Pegou num saco de farinha e atirou-o para os ombros, dizendo:

– Nesse caso, levo-lhe um saco de farinha com que fabrica o pão para comer as sardinhas. E fugiu.

Estava uma senhora professora à janela da escola, a ver quem passava, enquanto as alunas brincavam no recreio. Passou o macaco com o saco às costas.

– Como ele vai carregado, o pobrezinho – disse a professora.

O macaco ficou comovido com estas falas da professora e, já se vê, deu-lhe o saco de farinha.

Pois é. De mãos a abanar é que sabe bem passear… Mas, passado tempo, veio-lhe a vontade de chamar outra vez seu ao saco de farinha e voltou atrás, à procura da professora. – Olha o malcriado do macaco a exigir o que ainda há bocado nos deu, sem que ninguém lhe pedisse. Da farinha amassámos bolos e as minhas meninas comeram-nos todos – disse a senhora professora.

Aí o macaco zangou-se. Zangou-se e fez outro disparate. Agarrou numa menina e fugiu com ela, dizendo:

– Nesse caso, levo-lhe uma menina que comeu os bolos da minha farinha.

Mas a menina, ao colo do macaco, não parava de chorar.

– Quero a minha mãe. Quero a minha mãe, dizia a menina.

O macaco condoeu-se e, já se vê, levou-a a casa da mãe, que lhe agradeceu muito o encargo. Até a menina, depois de se assoar e limpar os olhos, lhe fez uma festinha de amizade.

Pois é. De mãos a abanar é que sabe bem passear…

Mas, passado tempo, começou a sentir saudades da menina e voltou atrás, a saber dela.

– Querem lá ver o maganão do macaco que não para de rondar-me a casa- disse-lhe a mãe da menina. – A minha filha está a ajudar-me a lavar a roupa, que eu estou a estender, e se ainda quer saber mais vou chamar o meu marido, que anda na horta, e já lhe trata da saúde. Aí o macaco zangou-se. Zangou-se e fez outro disparate. Agarrou numa camisa que estava estendida e abalou com ela, dizendo: – Nesse caso, levo-lhe uma camisa fina lavada pela menina.

Estava um velho violeiro a trabalhar à porta da oficina, quando o macaco por ele passou, a correr.

– Senhor camiseiro, ó senhor camiseiro, deixe-me ver a sua mercadoria – disse-lhe o violeiro.

O macaco passou e aproximou-se do velhote, que vestia uma camisa muito estafada e costipada.

– Parece de bom pano – disse o violeiro. – Só tenho pena que a minha bolsa não chegue a semelhante luxo. Afinal uma vida de trabalho não dá direito a camisa fina.

O macaco ficou impressionado com as falas do velhote e, já se vê, deu-lhe a camisa. Pois é. De mãos a abanar é que sabe bem passear…

Mas, passado tempo, e como de costume, arrependeu-se e voltou atrás, à procura do violeiro.– Olha o aldrabão do macaco que não me deixa em paz. A camisa não valia nem o trabalho de vesti-la. Era tão fina, que se rasgou toda, quando a pus. E se continua aí especado ainda lhe atiro com esta viola à cabeça – gritou-lhe o violeiro. O macaco, isto ouvindo, arrancou a viola das mãos do velho e disse:

– Nesse caso, antes que a estrague na minha cabeça, levo-a eu inteira, que melhor me serve inteira do que partida. E fugiu com a viola ao ombro.

– Agarra que é ladrão! – gritou o violeiro, correndo atrás dele.

O macaco trepou a uma árvore, saltou para uma varanda, subiu a um telhado e lá de cima espreitou cá para baixo.

Estava um grande ajuntamento na rua. Era o violeiro, o pai e a mãe da menina, a professora, o padeiro, a peixeira, o barbeiro e muita rapaziada. Todos apontavam para ele, cantando e troçando:

*– Olha o macaco mariola

que de rabo fez navalha

da navalha fez sardinha

da sardinha fez farinha

da farinha fez menina

da menina fez camisa

da camisa fez viola

e agora deu à sola

e agora deu á sola.*

O macaco no telhado repimpado pegou na viola e respondeu-lhes:

– Pois se agora dei à sola

Pois se agora vos fugi

É que a mim ninguém me enrola

E de mim ninguém se ri.

Timglintim, tinglintim.

Timglintim, timglintim.

Cá em baixo, continuava a surriada. Riam-se e cantavam para ele:

  • – Olha o macaco mariola,

estarola e gabarola

com pancada na cachola,

dá e tira, mata e esfola,

ora parte, ora cola,

ora mete para a sacola…

Dá a esmola, tira a esmola,

mariola, mariola

quem te meta na gaiola,

quem te meta na gaiola.*

Mas o macaco no telhado respondia ao desafio:

*– Não me metem na gaiola

que de mim ninguém se ri.

A tocar nesta viola,

tinglintim, tinglintim,

a dançar com castanholas

vou daqui para Madrid.*

*Sou macaco mariola

e rei do charivari,

porque a mim ninguém me enrola

e a tocar nesta viola

tinglintim, tinglintim

não tenham pena de mim.

Tinglintim, tinglintim

não tenham pena de mim,

tinglintim, tinglintim

não tenham pena de mim…

Foi-se embora o macaco…*

Contos tradicionais portugueses, Adaptado da versão de António Torrado

O Macaco de Rabo Cortado

Adira à nossa lista especial para receber conteúdos didáticos