Lápis Mágico

A raposa e a cegonha

Uma Fábula muito conhecida que encerra uma lição sempre atual.

A raposa e a cegonha

Quis a raposa matreira,

Que excede a todas na ronha,

Lá por piques de outro tempo,

Pregar um ópio à cegonha.

Topando-a, lhe diz: “comadre,

Tenho amanhã belas migas,

E eu nada como com gosto

Sem convidar as amigas.

De lá ir jantar comigo

Quero que tenha a bondade;

Vá em jejum porque pode

Tirar-lhe o almoço a vontade.”

Agradeceu-lhe a cegonha

Uma of’renda tão singela,

E contava que teria

Uma grande fartadela.

Ao sítio aprazado foi,

Era meio-dia em ponto,

E com efeito a raposa

Já tinha o banquete pronto.

Espalhadas num lajedo

Pôs as migas do jantar,

E à cegonha diz: “comadre,

Aqui as tenho a esfriar.

Creio que são muito boas -

Sans façon - vamos a elas.”

Eis logo chupa metade

Nas primeiras lambidelas.

No longo bico a cegonha

Nada podia apanhar;

E a raposa em ar de mofa,

Mamou inteiro o jantar.

Ficando morta de fome,

Não disse nada a cegonha;

Mas logo jurou vingar-se

Daquela pouca vergonha.

E afetando ser-lhe grata,

Disse: “comadre, eu a instigo

A dar-me o gosto amanhã

D’ir também jantar comigo.”

A raposa labisqueira

Na cegonha se fiou,

E ao convite, às horas dadas,

No outro dia não faltou.

Uma botija com papas

Pronta a cegonha lhe tinha;

E diz-lhe: “sem cerimônia,

A elas, comadre minha.”

*

Já pelo estreito gargalo

Comendo, o bico metia;

E a esperta só lambiscava

O que à cegonha caía.

Ela, depois de estar farta,

Lhe disse: “prezada amiga,

Demos mil graças ao céu

Por nos encher a barriga.”

A raposa conhecendo

A vingança da cegonha,

Safou-se de orelha baixa,

Com mais fome que vergonha.

Enganadores nocivos,

Aprendei esta lição.

Tramas com tramas se pagam,

Que é pena de Talião.

Se quase sempre os que iludem

Sem que os iludam não passam,

Nunca ninguém faça aos outros

O que não quer que lhe façam.

Jean de La Fontaine

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