Lápis Mágico

A lenda do palácio de Estói

O Palácio de Estoi foi remodelado e passou a ser uma das Pousadas de Portugal.

A lenda do palácio de Estói

As lendas sempre teciam,

Noutros tempos, noutras eras,

Histórias que entonteciam

O sorrir das primaveras.

*

Romances que as gerações

Doutras gerações traziam,

P’ra falar aos corações

E, assim, os entristeciam.

*

Eram tão tristes baladas,

Relatos de histórias lindas,

Que se contavam, choradas,

Por dias, noites infindas.

*

Se muitas a nós vieram,

Falando casos de amor,

Outras muitas se perderam,

Por falta de narrador.

*

É duma lenda esquecida

Que hoje vos venho falar;

Duma que nenhuma vida

Pôde com ela ficar.

*

Longo tempo andou perdida

Nas margens do esquecimento,

‘té que uma voz dolorida

Me a contou, por um momento.

**

Foi por noite perfumada

Das rosas de algum jardim,

Que ouvi a voz torturada,

E a lenda dizia assim:

*

— “Em tempos que o tempo trouxe

Das mãos de Deus, poderosas,

Era a vida aqui tão doce

E os jardins eram de rosas.

*

“Os ribeiros, que os havia

Correndo por todo o lado,

Prestavam à luz do dia

Um encanto desusado.

*

“E, à noite, brilhavam mais

Que os astros cheios de luz,

Soltando suspiros e ais,

Na raiz de alguma cruz.

*

“Aqui, viviam as gentes

Tão cristãs e tão de siso,

Tão felizes, tão contentes,

Tal fosse no paraíso.

*

“E até os astros dos céus,

Vindos de além do infinito,

Deitavam seus lindos véus,

De luzes sobre o granito.

*

‘Era então a serrania

Sempre de verde florida,

Onde a cor e a luz bebia,

Mesmo a rosa e a margarida.

*

“Isto foi em hora antiga,

Porque depois… ah!… depois,

Veio uma gente inimiga

Que apagou todos os sóis.

*

“E de opróbrio revestiu

Os habitantes cristãos,

— Povo ilustre que serviu

Os moiros, por suas mãos —.

*

“Era a vergonha tamanha

E tão grande o seu sofrer,

Que fugiu, para a montanha,

O povo, p’ra não morrer.

*

“E os sarracenos, senhores

Da terra que emudeceram,

Pisando vergéis e flores,

De pronto se defenderam.

*

“Alto castelo se ergueu

Numa elevação propícia,

Mas.., por aviso do céu,

Nunca dele houve notícia…

*

“Que só a lenda me diz Que ali, de facto, existiram Muros que, desde a raiz, Aos assaltos resistiram.

*

“Foram, por anos compridos,

Viveres tão margurados,

Que os pobres cristãos vencidos

Morriam, abandonados.

*

“té que um dia a luz mais alta

Do futuro despontou,

No tudo em que havia falta,

Na fé que a todos sobrou.

*

“Foi o caso que, por vezes,

Apesar de algum rebate,

Os valentes portugueses

Aos mouros davam combate.

*

“Eram ataques fortuitos,

Feitos repentinamente,

Donde colhiam os fruitos

De ceifar a moira gente.

*

“Foi a força enfraquecendo

Da moirama, em tempo breve,

De tal modo, que só vendo

As coisas que a pena escreve.

*

‘Foi, então, depois a vez,

Havido de Deus sinal,

Do forte Rei português

Dar o combate final.

*

“E os moiros, desbaratados,

Fugiram a bom fugir,

Indo morrer afogados

No mar, ao longe, a luzir.

*

“A lusa gente, após logo,

— Que mais podia fazê-lo? —

Passaram a ferro e fogo

As pedras desse castelo.

*

“Ali tudo foi desfeito

E tudo caiu por terra,

De modo que desse feito

Acabou p’ra sempre a guerra”.

*

Isto foi que disse a lenda

Naquela noite saudosa,

P’ra que mais assim me prenda

À terra de Estoi, famosa.

*

Mas a voz do entendimento,

Que veio de outros avós,

Mais me contou, num momento,

Que sucedeu logo após:

*

“Deus Allah que das esferas

Tudo viu e acompanhou,

P’ra todo o sempre das eras,

A lei fatal decretou:

*

“Hão-de passar muitos anos,

“Os séc’los hão-de correr,

“E nessa vida de enganos

“Muito irá acontecer.

*

“Mas de tudo o que virá

“De mal, por minha vontade,

“Muita fala se dirá

“Duma coisa, na verdade.

*

“É esta a minha sentença,

“Será este o meu castigo

“Que, por vós e por ofensa, “Vai cair, povo inimigo:

*

“Sobre o castelo arruído,

‘Um majestoso e falado

“Palácio será erguido

“P’ra depois ficar fechado”,

*

E assim foi… ninguém esquece

De Allah o puro sentido,

Que o Palácio permanece,

Aqui perto, adormecido…

  • *

Foi esta a lenda esquecida

Que as horas vieram contar,

F que irá p’r’além da vida,

Se ninguém quiser salvar

*

Esse Palácio de Estoi,

Prodígio de arquitectura,

Que em outro tempo assim foi

Traçado na pedra dura.

LOPES, Morais Algarve: as Moiras Encantadas s/l, Edição do Autor, 1995 , p.88-94

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